Histórias do Fórum das Letras

História do Fórum das Letras

 

A primeira edição do Fórum das Letras ocorreu entre 10 e 15 de novembro de 2005 com curadoria de Júlia Hansen e Carla Fernanda Fontana. Realizado no centro de convenções da UFOP, contou com público e programação restritas quando comparados às edições posteriores. 

 

A primeira edição não teve tema, como as que viriam depois, mas contou com a exposição “Reunião de Memórias: da Editora Giordano à Oficina do Livro”, que mostrou a história do incrível bibliófilo e editor Cláudio Giordano.

Mesmo com os recursos reduzidos, as atividades despertaram grande interesse no público. “tivemos palestras arrebatadoras com Adélia Prado, Bartolomeu Campos Queiróz e João Adolfo Hansen, que falou na Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto. Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna fizeram uma conversa com o tema “Imaginário a dois”, sobre como compartilhavam, no quotidiano, as leituras e a escrita de seus textos. Lembro especialmente de uma mesa sobre crônicas, protagonizada por Carlos Herculano, Ignácio de Loyola Brandão e Luiz Giffoni, com coordenação do jornalista Oscar Pilagallo, em que todos os participantes riram muito das histórias contadas por esses grandes escritores. A mesa fez contraponto com outra, no mesmo tom, em que participaram os jornalistas Humberto Werneck e Zuenir Ventura, e o português Carlos Fino”, lembra Guiomar de Grammont, a idealizadora do evento e desde então, sua curadora.

 

2006: Memória e edição

O segundo Fórum das Letras aconteceu entre 1 e 5 de novembro de 2006, com o tema “Memória e Edições” e teve como homenageado especial o grande escritor Guimarães Rosa. O início do evento foi marcado por uma inesperada correria em função do “apagão aéreo” ocasionado pela greve dos controladores de vôo acontecida na data, que atrasou tanto a vinda de Adriana Calcanhoto e Silviano Santiago que não conseguiram chegar, o que resultou no cancelamento da mesa abertura com a presença dos dois. 

 

O evento começou de fato no segundo dia da programação com o ciclo sobre a Edição de livros com o grande historiador Roger Chartier, que abordou as mutações dos livros na contemporaneidade. Logo depois foi ofertado um curso de editoração por alguns dos mais importantes editores do país no momento: Isa Pessoa (Objetiva), Luciana Villas-Boas (Record), Maria Amélia Mello (José Olympio, hoje, Autêntica), Plínio Martins (EdUSP), Joaci Furtado (Globo) e Jorge Viveiros de Castro (7 Letras).

Guimarães Rosa foi o primeiro autor homenageado, e em ocasião tão especial tivemos o lançamento da edição comemorativa do  Grande Sertão: Veredas, apresentada pelo editor da Nova Fronteira na época, Carlos Augusto Lacerda, que também participou de uma mesa sobre a edição de livros com o publisher e editor Sergio Machado, do Grupo Editorial Record.

“Sergio Sant’Anna, Adriana Lisboa, Juremir Machado da Silva, Ana Miranda e Marcelino Freire também participaram dessa edição, que recebeu ainda os poetas Tião Nunes, Eucanaã Ferraz, Moacir Amâncio e Carlos Ávila. Contamos com uma conversa inspiradíssima entre José Miguel Wisnik e Francisco Bosco, mediada pelo músico mineiro Francisco de Assis”, lembra a curadora (veja um trecho aqui). A memória da MPB foi celebrada e podemos ver um pouquinho nesse breve vídeo e a mesa “O romance jornalístico: ficção ou reportagem” está brevemente documentada neste link. O evento também contou com a presença da estrela norueguesa Åsne Seierstad, autora do best seller O Livreiro de Cabul.

A Língua Portuguesa começou a ser tema de destaque a partir dessa segunda edição onde contamos com a participação dos angolanos José Eduardo Agualusa e  Zetho Cunha Gonçalves e do moçambicano Nelson Saúte. Veja um trecho aqui.

As exposições desse ano foram a Muriliana, em comemoração aos 90 anos do escritor Murilo Rubião, e outra sobre o poeta e artista gráfico ouropretano Guilherme Mansur, mais especificamente, sua história como editor.

“Em 2006, porém, a mais importante inovação que tivemos no Fórum das Letras, foi a criação do Fórum das Letrinhas. Nesse espaço, intensificamos as atividades voltadas para o fomento da leitura, por meio da mobilização do público escolar, trazendo autores de literatura infanto-juvenil para debater com alunos sobretudo das redes públicas de ensino da cidade de Ouro Preto”, avalia Guiomar. O Fórum das Letrinhas passou a fazer parte da programação do Fórum desde então.

 

Os editores Sergio Machado, do Grupo Editorial Record, e Carlos Augusto Lacerda, na época, da Nova Fronteira.

2007 Escritas Híbridas

O terceiro Fórum das Letras aconteceu entre 01 e 04 de novembro de 2007, e tematizou as chamadas “Escritas Híbridas”. Segundo Guiomar de Grammont, e escolha  se deu pelo entendimento de que: 

“A língua é um organismo vivo: todas as línguas sempre tiveram uma tendência à mistura e à sobreposição, seja pela contaminação com outros idiomas ou pela mudança, nas línguas faladas, que ocorre com o tempo. E a literatura acompanha, em menor ou maior medida, esses processos. Hoje, com a abertura para a diversidade linguística, os autores tendem a buscar com mais intensidade essas possibilidades de expressão, enriquecendo seus textos. Um exemplo é Guimarães Rosa, que trabalhou o tempo todo com o hibridismo entre formas cultas da língua e populares ou arcaicas, além de mesclar palavras de diferentes línguas. A maior parte dos escritores experimentou o hibridismo entre gêneros e linguagens, reunindo literatura, música e artes plásticas, por exemplo, ou construindo romances ensaísticos e testemunhos jornalísticos em que a ficção e a literatura se confundem. Na atualidade, com o advento da internet, essas formas híbridas se tornam ainda mais presentes. Tudo é texto, tudo passa a ser literatura, de charadas a bulas de remédio, de grafites a fotografias.”

Depois disso já dá pra imaginar como esse Fórum foi especial e importante, não é mesmo? Contamos ainda com a presença de  Sérgio Sant’Anna, Cristóvão Tezza, em conversa sobre Literatura e Confissão, com José Eduardo Agualusa e Maria Esther Maciel; Marina Colasanti, Luís Fernando Veríssimo, em conversa com sua filha, Mariana Veríssimo, escritora e roteirista de cinema, TV e teatro. 

 

O escritor Luís Fernando Veríssimo

O evento também foi pontuado pela aula-show “Nas palavras das canções” ministrada por José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, sobre a relação entre letra e música. O filósofo Eduardo Jardim e a biógrafa Laure Adler discutiram a vida e a obra de Hannah Arendt. Tivemos um debate interessantíssimo sobre Jornalismo e História, com os jornalistas Ricardo Kotscho, Zuenir Ventura, seu filho Mauro Ventura e o historiador português Rui Tavares. Recebemos ainda o angolano Ondjaki e os portugueses Francisco José Viegas, Miguel Gullander, Patrícia Reis e Inês Pedrosa. Nesse ano também surgiu a ideia de internacionalizar o evento com o Letras em Lisboa, que se  concretizou em 2008 e 2009, a partir das iniciativas de Guiomar de Grammont e Inês Pedrosa.

2008 O mistério na literatura

O Fórum das Letras de 2008 aconteceu entre 05 e 09 de novembro e teve como tema o “Mistério na literatura” – mistério enquanto enigma do Ser, fonte de literatura e das artes em geral, assim como o mistério que abrange os jogos de ocultamento que os autores desenvolvem nas obras literárias para dominar as expectativas e os desejos do leitor, de forma que mantém vivo o interesse na leitura. 

 

Contamos com a ilustríssima presença de Rubem Alves, Laurentino Gomes e muitos outros autores em uma programação que movimentou toda a cidade de Ouro Preto. 

Veja a matéria produzida pela TV UFOP sobre a edição:

 

Laurentino Gomes

O escritor João Gilberto Noll, que participou de uma conversa mediada por Luís Alberto Brandão com o tema “Os mistérios não gostam de ser nomeados”, em referência ao delirante livro de sua autoria  intitulado Acenos e Afagos.

 

João Gilberto Noll

2009 Biografia, ficção e memória

A quinta edição do Fórum das Letras teve como tema “Biografia, ficção e memória” e ocorreu entre os dias 29 de outubro a 02 de novembro de 2010, realizado no Cine Vila Rica que passou a ser o coração do evento. “Além dos lugares assentados, espalhamos almofadas na área mais próxima do palco, e muitos alunos assistiam ao evento deitados nas almofadas. Essa informalidade passou a ser a marca do Fórum das Letras”, elenca a curadora do evento Guiomar de Grammont.

 

A homenageada deste ano foi a França, primeira vez que um país foi homenageado, por se tratar do Ano da França no Brasil. “A temporada cultural francesa no Brasil foi resultado da cooperação entre os governos, envolvendo o setor privado, profissionais da cultura, artistas, intelectuais, pesquisadores, sociedade civil e mídia dos dois países. Nós nos juntamos a essa grande homenagem.”

Veja as matérias produzidas pela TV UFOP sobre a edição:

Público do Fórum das Letras no Cine Vila Rica. Crédito Carol Reis

Arnaldo Antunes e Moska – crédito Carol Reis

 

2010 Áfricas

A sexta edição do Fórum das Letras ocorreu entre os dias 10 a 15 de novembro de 2010 com o tema “Áfricas e”, segundo a curadora, foi a edição mais interessante do evento desde então:

“O Fórum das Letras daquele ano trouxe ao Brasil o maior grupo de escritores africanos que já se viu no país, dentre eles, os mais conhecidos internacionalmente, ainda em atividade: Pepetela (Angolano), Luandino Vieira (Angola), João Melo (Angola), Odete Semedo (Guiné-Bissau), Inocência da Mata (São Tomé e Príncipe), Filinto Elísio (Cabo Verde), Ondjaki (Angola), Fragata de Morais (Angola), Adriano Botelho (Angola), Manuel Rui (Angola), João Maimona (Angola), Margarida Paredes (portuguesa que lutou na guerra de independência de Angola, do lado dos angolanos).  Dentre os africanos, Felix Ayoh’Omidire, professor e ensaísta da Nigéria, participou de uma mesa antológica sobre mitologias africanas, com Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas. Leonardo Boff e Mia Couto, de Moçambique, encerraram o evento com um debate inesquecível sobre “Escrita, Liberdade e Transformação do Mundo”, lembra Guiomar de Grammont.

 

O Fórum prestou uma homenagem a Ferreira Gullar em sua abertura, além de contar com a presença de outros grandes escritores brasileiros, tais como Affonso Ávila, Adélia Prado, Décio Pignatari, Laurentino Gomes, Frederico Barbosa, Carlito Azevedo, Beatriz Bracher, João Ubaldo Ribeiro, Marcio Souza, Paulo Lins, dentre outros.

Fabiana Cozza fez uma apresentação memorável da música  “Un tour de manège”.

Veja aqui alguns registros da edição.

 

2011 Memória do Esquecimento

A sétima edição do Fórum das Letras aconteceu de 11 a 15 de novembro de 2011, com o tema “Memória do esquecimento” tendo como eixo central a abordagem da memória artística e literária da cidade. A homenageada dessa edição foi a autora Elizabeth Bishop, que celebrava nesse ano o centenário de seu nascimento.

O Fórum contou com a colaboração de professores dos cursos de Filosofia, Letras (com o congresso sobre Elizabeth Bishop), Artes Cênicas, Jornalismo e Música da UFOP. Pela primeira vez a dramaturgia ganha destaque no evento, com curadoria da professora e pesquisadora Alessandra Vannucci, relacionando a atuação teatral e os projetos de vida de Judith Malina e Augusto Boal. Veja aqui um trecho de entrevista com a pesquisadora Alessandra Vannucci.

Vinheta do evento aqui.

Rubem Alves e Guiomar de Grammont – crédito – Marcelo Tholedo

 

2012 Como se faz um Livro?

Após sete anos debatendo e celebrando as mais diversas publicações, a grande questão em torno do universo das letras foi o tema do Fórum das Letras de 2012, realizado entre os dias 22 e 25 de novembro daquele ano. “Com se faz um livro?” foi o tema do evento, que homenageou o escritor mineiro Lúcio Cardoso. 

O nome do evento também inaugurou um novo espaço, que se repetiria em outras edições: os processos artísticos e técnicos envolvidos na produção dos livros foram tema de diversos debates entre escritores, editores, agentes literários e livreiros, no anexo do Museu da Inconfidência. 

O primeiro desses debates discutiu a editoração de livros científicos e contou com Andreia Amaral, na época, editora da Civilização Brasileira e o professor do curso de Filosofia da UFOP, Gilson Iannini, que também atuava como editor na Autêntica, com mediação de José Luis Furtado.

O evento tratou ainda dos processos de criação dos escritores nos mais diversos gêneros: romance, conto, crônica, ensaio e poesia, em debates com Fernando Molica, Bernardo Ajzenberg, Fabrício Carpinejar, Santiago Nazarian, entre outros.

A abertura da oitava edição contou com a fala de Nélida Piñon, sobre “O Livro das Horas”, memórias da escritora que acabara de ser publicada. O poeta Antônio Cícero e o filósofo Eduardo Jardim protagonizaram um debate inesquecível sobre a poesia e a filosofia. A relação entre História e a escrita biográfica, sempre tão presente no Fórum, não ficou de lado nesta edição, com um debate entre Jorge Ferreira, Lucas Figueiredo e Paulo Markun, com mediação de Mateus Pereira, professor de história da UFOP.  No encerramento, João Gilberto Gonçalo Tavares, que amava o Fórum das Letras, conversou sobre sua “Solidão Continental”, com o professor de literatura da UFMG, Luís Alberto Brandão. Ambos se tornaram grandes amigos no Fórum das Letras. 

Coordenado pelos professores Marta Maia e Reges Schwaab, o Ciclo Jornalismo e Literatura contou com a presença dos jornalistas Mário Magalhães, que lançava a biografia de Marighella, Alexandra Lucas Coelho, que foi correspondente em Jerusalém, Oriente Médio e Ásia Central e escreveu diversos livros-reportagem, além da escritora e professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cristiane Costa.

A Via-Sacra Poética foi responsável por preencher o intervalo entre os debates com cultura e poesia.  As apresentações teatrais, musicais e outras manifestações artísticas aconteciam em frente ao Cine Vila Rica e nas ruas de Ouro Preto. 

Um pouco mais dessa edição aqui.

 

2013 Literaturas de Origem

Em 2013, com o tema “Literaturas da Origem”, o Fórum das Letras teve sua primeira e única edição realizada no meio do ano, entre os dias 29 de maio e 02 de junho, durante o feriado de Corpus Christi. 

O feriado de Corpus Christi motivou uma reflexão sobre a relação entre literatura e o sagrado, daí o tema. O termo “origem” costuma ser referido tanto à ideia de princípio quanto de fundamento, fonte da literatura e, sobretudo, do poema. A poesia de formação mais autêntica e profunda, encontra seu sentido em uma essência originária que se identifica com o sagrado. A poesia é memória da palavra revelada. Daí se origina sua fertilidade e sua potência, renovadas a cada leitura ao longo do tempo. Com esse tema, as literaturas dos povos originários, impregnadas de sua origem mitológica, também receberam espaço de destaque. A ilustradora Ângela Lago e a poeta Simone Homem de Mello falaram no evento sobre mitologia e literatura.

O tema do evento destacou também o modernismo, primeiro movimento de reflexão sobre o hibridismo das culturas brasileiras, com a mesa chamada « Da origem ao original: aspectos do moderno no Brasil », com  Luiz Camillo Osório, Pedro Andrade e Ivan Marques, mediada por Eduardo Jardim. 

 

O filósofo e ensaísta Eduardo Jardim

A abertura daquele ano contou com a poeta Adélia Prado, no Cine Vila Rica, sendo homenageada em seguida com a apresentação de um espetáculo com poemas de sua autoria interpretados pelo grupo Mulheres em Chama, de alunas do curso de artes cênicas da UFOP. Adélia se integrou ao espetáculo, ensaiando com as meninas e lendo seus poemas com elas, em uma apresentação incrível. 

 

A escritora Adélia Prado em conversa com  Guiomar de Grammont

O tema tão abrangente fez com que as mesas fossem pensadas para abarcar as diversas formas de expressão dessa origem mítica, com referências africanas e indígenas que formam a cultura brasileira. Cada cultura transforma seus relatos mitológicos em literatura, com a linguagem que lhe parece mais adequada, em prosa, poesia, desenhos, sons. Daniel Munduruku, o ator e diretor italiano Enrico Bonavera e o compositor Juba Machado hipnotizaram a plateia com uma mesa sobre “Xamanismo, rituais de contato e narrativas da origem”, contadas com ritmos, danças e máscaras, mediada por Rachel Bertol. As raízes africanas foram abordadas na mesa “Narrativas Ancestrais”, com Elisa Lucinda e Nei Lopes, mediada por Zeca Ligiéro.

Nesse Fórum, houve também um congresso em parceria com o 9º Encontro Nacional da História da Mídia, realizado no mesmo período em Ouro Preto, com diversas palestras e minicursos sobre o tema. Com o tema “Mídia e Ditadura Militar” os jornalistas e escritores Lucas Figueiredo, Audálio Dantas e Paulo Markun debateram a violação dos direitos humanos por agentes do Estado, na chamada Comissão da Verdade, com mediação de Marta Maia. Audálio Dantas, a partir de então, se tornou uma espécie de curador honorário do Ciclo de Jornalismo e Literatura no Fórum das Letras, ao lado da curadora Marta Maia. O ponto alto das mesas no Cine Vila Rica, coração do evento, foi a conversa entre Mino Carta e Maurício Dias, sobre “O Brasil”, título das memórias de Mino Carta Junto ao congresso realizou-se também o Ciclo de Jornalismo e Literatura, com jornalistas e escritores como Audálio Dantas, Ivan Marsiglia, Humberto Werneck, João Gabriel de Lima, Eliane Brum, Cristiane Segatto, entre outros. A intenção da série de debates foi incentivar a prática jornalística mais autoral, contribuindo para que os profissionais e estudantes encontrem e trabalhem seu estilo individual em cada etapa da reportagem.

O espaço “O Livro em Questão” teve como tema principal o problema da criminalização das biografias: tanto o autor como o editor podiam ser processados, mesmo por informações verídicas tornadas públicas, sem o consentimento do biografado ou da sua família, no caso deste já ter desaparecido. Paulo Cesar de Araújo, que acabava de ter sua biografia de Roberto Carlos tirada de circulação, Newton Lima, deputado relator do projeto da chamada “Lei das Biografias’ no Congresso e a Presidente do Sindicato dos Editores, Sônia Jardim debateram a polêmica. A mesa repercutiu na redação de uma moção, assinada por centenas de pessoas durante o Fórum e depois enviada para Newton Lima, para auxiliar na sua defesa da mudança da lei. Felizmente, as biografias foram liberadas pelo STF em 2015. 

O Sesc sempre foi um dos mais importantes parceiros do Fórum das Letras. Em 2013, homenageou-se os 10 anos do Prêmio Sesc de Literatura com uma mesa sobre a importância dos prêmios literários na carreira de um escritor, trazendo autores premiados em algumas edições, como Luisa Geisler, Lúcia Bettencourt e Rafael Gallo. A palestra foi mediada pela professora e escritora premiada, Maria Esther Maciel. 

Esta edição inaugurou uma programação literária voltada para o mundo jurídico, o Ciclo Justiça, Letras e Artes, realizado com sucesso em 2013 e 2014. A principal atividade do Ciclo foi a palestra sobre Direitos Humanos no Brasil, com o doutor em Ciência Política e coordenador da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, seguida do lançamento do livro de crônicas “A vida não é justa”, da juíza Andréa Pachá, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, baseado em casos reais de uma vara de família, narrados com muita sensibilidade. Sakamoto se identificou tanto com o Fórum das Letras, que retornou, a partir de então, quase todos os anos, ora convidado pelo Ciclo de Letras Jurídicas, ora pelo de Jornalismo e Literatura. 

 

 

 

 

 

2014 Escritas em Transe

A ebolição entre Literatura, Arte e Política levou o Fórum das Letras ao tema de 2014: “Escritas em Transe – 50 anos do Golpe Militar; 30 anos das Diretas Já”, porém ainda não se imaginava que logo o Brasil voltaria a ser uma terra em transe. Realizado entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro, essa edição foi a que teve maior configuração, com seis espaços. A abertura daquele ano foi da cantora e escritora Adriana Calcanhoto, com um pocket show e um debate com a plateia. 

O Fórum de 2014 contou com a programação principal, no Cine Vila Rica, o Ciclo Jornalismo e Literatura, o Ciclo Justiça, Letras e Artes, que acabou recebendo o nome de “Fórum das Letras Jurídicas”, o Fórum das Letrinhas, o Ciclo de Debates e o #DasLetras, dedicado especialmente ao público jovem.

 

Apresentação da cantora e escritora Adriana Calcanhoto, que teve sua participação no Fórum em 2006 cancelada, devido à greve dos controladores de vôo.

A relação entre a palavra escrita e a política norteou os debates daquele ano. As principais mesas foram “Reflexões à margem da história”, com Cláudio Aguiar, Frei Betto, Mário Magalhães e Mário Prata; “Herzog: símbolo da liberdade de expressão”, com Audálio Dantas, Paulo Markun, Ricardo Kotscho e Zuenir Ventura; “1964: crônica de um golpe anunciado”, com Heloísa Starling, Lucília Neves e Nilmário Miranda (veja aqui vídeo de Nilmário); e “O Brado Retumbante: a reconquista da democracia no Brasil”, título do livro de Paulo Markun, lançado no evento, em uma mesa com o autor e os amigos Geneton Moraes Neto e Lira Neto, com mediação de Manuel da Costa Pinto. Naquele momento, já havia malucos saindo às ruas do Brasil pedindo Golpe Militar, e Mário Magalhães escreveu sobre essa aberração em uma crônica, lembrando que, no Fórum das Letras, o mundo era “como deveria ser”.

 

Da esquerda para a direita: os jornalistas  Audálio Dantas, Cristiano Gomes (na época estudante), Lira Neto, Ricardo Kotscho, Marta Maia, curadora do Ciclo de Jornalismo, o cineasta João Batista de Andrade, na época, diretor do Memorial da América Latina e o jornalista e documentarista Paulo Markun, no camarim do anexo do Museu da Inconfidência.)

A principal novidade desta edição do Fórum Letras foi o #DasLetras, com uma programação inteiramente dedicada ao universo jovem e com debates sobre comportamento, que interessava a todas as idades. Com curadoria da professora Cilza Bignotto, do Curso de Letras da UFOP, participaram Ana Paula Maia, Rodrigo Garcia Lopes, Julio Ludemir, Fabrício Carpinejar, Nino Stutz, Tico Santa Cruz, Raphael Montes, Férrez e o editor Lucas Bandeira, entre outros, falando sobre centro e periferia, a relação entre a literatura e outras linguagens, e as chamadas “escritas de si”. Sites, blogs e outras experiências literárias foram debatidos por nomes da nova geração de blogueiros, como Clarice Freire e Pedro Gabriel.

O Ciclo Jornalismo e Literatura, que continuou com curadoria da professora Marta Maia, professora de Jornalismo da UFOP, teve como temas as “Escritas do desassossego”, “Escritas da ausência” e “Escritas da experiência”, em debates desenvolvidos por Audálio Dantas, Daniela Arbex (Tribuna de Minas), Eliane Brum (El País), Luiza Villaméa (Revista Brasileiros), Mário Magalhães, Natália Viana (Agência Pública), Ricardo Kotscho (Record News) e Zuenir Ventura (O Globo). João Gabriel de Lima, que se tornara editor da revista Época, ministrou a oficina “Jornalismo e literatura: escritas criativas”.

O Ciclo de Debates foi o novo nome dado ao espaço “Questões do Livro”, que discutia os meandros do mercado editorial e políticas públicas voltadas para o universo do livro. Nesse espaço, fizemos o debate “Políticas públicas para a literatura no Brasil”, com Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro; Volnei Canônica, coordenador do Programa Prazer em Ler e Suzete Nunes, do Ministério da Cultura. Inspirada na homenagem ao Brasil no Salão do Livro de Paris, a mesa “A Literatura Brasileira na França” foi realizada com a editora Anne Marie Metaillié, que veio ao Fórum pela segunda vez, Paula Anacaona, que criou a editora Anacaona, e o tradutor francês Hubert Tézenas.

Os debates sobre questões relacionadas aos direitos humanos, relações trabalhistas no século XXI, entre outros, foram o foco do Fórum das Letras Jurídicas, organizado pelos coordenadores do curso de Direito da UFOP. O jornalista Leonardo Sakamoto foi novamente uma das principais atrações do encontro, que debateu os seguintes temas: direitos humanos, teoria da Justiça e reconhecimento, trabalho no século XXI, criminologia do cotidiano, justiça de transição: direito, memória e reflexões após 50 anos do golpe militar. Houve no evento também uma interessante exposição de charges sobre esse tema.

 

Cidade Refúgio para Escritores

Determinado em fazer de Ouro Preto a primeira cidade brasileira refúgio de escritores, o Fórum trouxe o diretor do International Cities of Refuge Network (ICORN), Helge Lund, a representante do ICORN no Brasil, Sylvie Debsacting executive director do PEN International, Carles Torner, assim como dois escritores hospedados pelo ICORN: o poeta Mohsen Emadi, do Irã, e a poeta Julia Oliveira, de Honduras, para discutir a condição em que vivem e viveram as vítimas da luta pela liberdade de expressão. Eles participaram de um debate sobre os temas abordados, bem como sobre a criação das Casas Brasileiras de Refúgio (CABRA), associação criada pelo Pen Clube do Brasil, com grande apoio de seu presidente, Cláudio Aguiar (que também veio ao Fórum), filiada ao ICORN, com o fim de auxiliar no acolhimento de escritores. Entre os autores internacionais confirmados estavam também a espanhola Care Santos, a portuguesa Lídia Jorge e o suíço Patrick Straumman.

 

2015 Diversidade Cultural e Liberdade de Expressão

Marcado pelo maior crime ambiental de todos os tempos, no dia 5 de novembro, causado pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, o Fórum das Letras de 2015 foi realizado entre os dias 4 e 8 de novembro. A inconsequência da mineradora e a incompetência das autoridades, culminaram na completa destruição do distrito de Bento Rodrigues, causou a morte de 19 pessoas e deixou um rastro de destruição até chegar ao mar, pelo Rio Doce, no Espírito Santo.

Naquele momento era impossível ter dimensão do crime causado pela ganância, mas o caos e a melancolia logo tomaram conta do evento. Apesar de o Fórum continuar sua programação, a maioria dos monitores engrossaram os esforços dos voluntários para auxiliar as pessoas atingidas. 

Naquele ano, o Fórum lançava o projeto de instalar em Ouro Preto a primeira casa refúgio para escritores da América Latina, o que acabou acontecendo mais tarde, em Belo Horizonte. O etíope Girma Fantaye compareceu ao evento para divulgar o projeto. Acolhido pelo ICORN, ele passaria quatro meses em Ouro Preto. Fantaye e a escritora egípcia Safaa Fathy, também abrigada pelo ICORN, participaram do debate “Exílio ou Silêncio?”, ao lado das representantes do ICORN, Elisabeth Dyvik e Sylvie Debs, e o professor Carlos Magno de Souza Paiva, do curso de Direito e coordenador de Assuntos Internacionais da UFOP.

O projeto da casa refúgio para escritores motivou o tema do Fórum em 2015, chamando a atenção para a necessidade de aceitação, compreensão e tolerância das diferenças e também da liberdade de expressão.

 

A escritora brasileira Conceição Evaristo e o escritor português José Luís Peixoto

A escritora Conceição Evaristo foi uma das estrelas desta edição, participando de duas mesas, uma falando sobre as vozes da diversidade, com Ton Farias e a antropóloga Betty Mindlin, e outra mesa sobre a Comunidade Literária dos Países de Língua Portuguesa, com José Luís Peixoto, de Portugal, e mediada por Suzana Vargas.

Com um tema que pretendia celebrar a liberdade de expressão, o Fórum prestou homenagem ao grande escritor Graciliano Ramos, com uma mesa de abertura que reuniu a ensaísta Elizabeth Ramos e os escritor Ricardo Ramos, netos do autor de Vidas Secas. A mesa contou ainda com Wander Melo Miranda, professor da UFMG, um dos mais importantes pesquisadores e especialistas na obra de Graciliano Ramos, e do jornalista Audálio Dantas, que publicou o livro “A infância de Graciliano Ramos”, em 2005. Com apoio de Selma Caetano, foi realizada a exposição fotográfica de manuscritos do consagrado autor, chamada “A palavra foi feita para dizer”, famosa frase atribuída a Graciliano.

Laerte foi mais uma estrela da constelação reunida naquele ano pelo Fórum. Encantadora e inspirada, ela conversou com o jornalista da revista Piauí, Fernando de Barros Silva, que fez seu perfil. Foi uma das atrações mais lotadas do Fórum.

 

Laerte, cartunista e chargista, uma das pessoas mais emblemáticas e influentes do Brasil.

Nesta edição o Fòrum teve diversas parcerias com prêmios literários e revistas importantes, como a Cult, Piauí e Época. O apoio do prêmio Jabuti possibilitou a participação de Marcelino Freire e Marisa Lajolo, e dos autores e ilustradores Mariana Massarani e Roger Mello, além dos jornalistas Audálio Dantas e Miriam Leitão, com mediação da professora do curso de jornalismo da UFOP, Karina Gomes Barbosa. A Revista Cult trouxe a mesa com o tema “A Política dos Afetos”, com os filósofos Christian Dunker, Vladimir Safatle e mediação do jornalista Wellington Andrade. 

O Ciclo de Jornalismo e Literatura abordou diversos aspectos das narrativas jornalísticas, em debates com Adriana Carranca (Estado de S. Paulo), Bruno Paes Manso (Ponte Jornalismo), Daniel Benevides (Brasileiros), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Leonardo Sakamoto (ONG Repórter Brasil), Marina Amaral (Agência Pública) Antonio Martins (Outras Palavras), Hélio Campos Melo e Robson Vilalba (Gazeta do Povo), que ministrou uma oficina sobre jornalismo em quadrinhos. O principal destaque foi a mesa com o tema “Memória, Anistia e Silêncio”, com John Dinges, o jornalista dos EUA que desvendou a Operação Condor, quando atuava no Chile.

O espaço #DasLetras teve mais uma edição, desta vez com curadoria do professor Bernardo Nascimento do Amorim, do curso de Letras. A discussão sobre os poetas e o politicamente correto foi um dos maiores sucessos de público desse espaço, com Ana Elisa Ribeiro, Geraldo Carneiro e Nicolas Behr, e mediação da poeta Júlia de Carvalho Hansen. Participaram nesse espaço também Carlito Azevedo, Fabio Weintraub, Ruy Proença, Sérgio Abranches, Felipe Pena, Luize Valente e Nina Caetano, professora de Artes Cênicas, entre outros. Além disso, houve uma aula sobre história cultural, com João Cezar de Castro Rocha, mediada por Valdei Lopes de Araújo, professor do curso de História. Veja aqui a Mesa Intercon: Interacoes e Performances.

Na programação artística, tivemos Intervenções Musicais de Alunos e Professores do Curso de Música e outro espetáculo eletrizante de Elisa Lucinda: “Eu sou puro pecado”, uma leitura de poemas de Adélia Prado, sob a direção de Geovana Pires.

Jards Macalé, Jorge Mautner e Daniel Benevides. Debate terminou em polêmica com o público.

 

2016 O Brasil

O Brasil estava em ebulição em 2016, e a universidade não estava diferente. O golpe jurídico-parlamentar que levou ao impeachment da presidenta Dilma Roussef e se desdobrou nos seguidos retrocessos que nos fez voltar “50 anos em dois”, como dizia a infeliz propaganda do governo golpista, causou rebuliço e o sentimento de que era preciso resistir aos ataques. Com a universidade ocupada pelos estudantes, o Fórum das Letras de 2016, realizado entre os dias 10 e 15 de novembro, só poderia ter um tema: “O Brasil”, era preciso repensar o país e seus desafios.

Com poucos recursos, graças aos seguidos cortes orçamentários em todas as áreas, o Fórum das Letras de 2016 homenageou o escritor mineiro Murilo Rubião, cujo centenário de nascimento era comemorado naquele ano. Jornalista, político e escritor, Murilo Rubião é um dos principais nomes das letras mineiras. Redator da Folha de Minas e diretor da Rádio Inconfidência, sediada em Belo Horizonte, lançou, em 1947, seu primeiro livro de contos, O ex-mágico. Em 1951, ocupou a função de chefe de gabinete do governador Juscelino Kubitschek. Em 1966 foi designado para organizar o Suplemento Literário do Diário Oficial de Minas Gerais, que se tornou um dos melhores órgãos de imprensa cultural já surgidos no país. A publicação de O pirotécnico Zacarias, em 1974, tornou Murilo Rubião subitamente reconhecido como escritor. Sua exígua obra passou a ser vista como a mais significativa manifestação da literatura fantástica no Brasil.

A parceria com o Sesc possibilitou muito do que ofereceu o Fórum daquele ano. O “Projeto Literaturas: questões do nosso tempo” trouxe um debate com o rapper Emicida e o escritor Férrez, amigo do músico, com mediação da antropóloga Érica Peçanha, especialista na chamada “literatura marginal”.

Mesa SESC com o rapper Emicida e o escritor Férrez, mediada pela pesquisadora Érica Peçanha.

 

2017 Sentimento de Mundo – a Poesia como Antídoto

Em 2017, mesmo com as dificuldades de captação de recursos, o Fórum das Letras pôde retomar o brilho de outros tempos. Homenageando Carlos Drummond de Andrade, sob o tema “Sentimento do mundo: a poesia como antídoto”, com referência ao terceiro livro do poeta, de 1940, no qual mostra sua face mais madura e atenta às fragilidades e angústias humanas. O poeta foi tema e presença em diversos espaços do Fórum, em filmes, debates, exposições. O Fórum das Letras de 2017 foi um mega-evento, com mais de 100 autores e atividades para todos os públicos e idades.

 

 

O Fórum teve uma pré-abertura de ouro, em uma bela cerimônia, em que o próprio Presidente da República de Cabo Verde, o escritor Jorge Carlos da Fonseca, esteve presente, para firmar o acordo de cooperação mútua firmado entre Ouro Preto e a Cidade Velha de Cabo Verde, a fim de facilitar o intercâmbio de autores, difundir as manifestações culturais e discutir estratégias em comum de preservação do patrimônio.

A parceria cultural com o Sesc, com grande apoio do cenógrafo Pedro Drummond, neto do poeta, possibilitou que o Fórum das Letras realizasse a exposição Drummond no calçadão, que levou para Ouro Preto uma réplica da famosa estátua do poeta localizada no calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. Além disso, a exposição multimídia, que foi muito visitada, apresentava cartas de Drummond trocadas com outros escritores, vídeos, curtas, projeções e poemas. 

 

Foto: O cenógrafo Pedro Drummond, neto do poeta Carlos Drummond de Andrade, ao lado da réplica da famosa estátua do avô – a original está localizada no calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

No Cine Vila Rica, foram realizados os debates do Literatura em Cena, com mesas sobre processos criativos, a escrita da mulher e a poesia, para citar alguns exemplos, além das atividades do projeto Arte da Palavra, do Sesc. A primeira delas foi a performance “A voz do mar”, do poeta Ricardo Aleixo. O Arte da Palavra realizou ainda três outras mesas: “A prosa entre o cruel e o sublime”, com Alexandre Marques Rodrigues e Maurício de Almeida; “De encontros e ausências”, com Franklin Carvalho e Mário Rodrigues; e “A resistência da poesia”, com Ana Elisa Ribeiro e Renato Negrão, com participação especial de Nicolas Behr e intervenção de Ítalo Laureano. Franklin Carvalho e Maurício de Almeida, laureados em edições anteriores do Prêmio Sesc, receberam também o Prêmio São Paulo de Literatura.

Também se apresentaram no Cine Vila Rica as escritoras Denise Schittine, Ângela Xavier e Cristina Agostinho, no debate “A escrita, a mulher e o sagrado”. Em “Cenas do Palco, Cenas da Política”, a professora Alessandra Vanucci mediou o debate entre um diretor, um dramaturgo e um ator: Marcelo Bones, Bosco Brasil e Ilion Troya, este último, integrante do mítico The Living Theater, um ícone da contracultura, criado por Judith Malina e Julian Beck.

O debate “Ironia e absurdo da existência” reuniu os brasileiros Amilcar Bettega e Michel Laub e os franceses Sebastien Lapâque, escritor e crítico literário do jornal “Le Figaro”, e Olivier Bourdeaut, cujo primeiro romance, “Esperando Bojangles”, estava havia 50 semanas na lista dos mais vendidos na França, tendo vencido cinco dos principais prêmios literários do país.

O Ciclo Cielo de Jornalismo de Literatura trouxe as biografias, os testemunhos e as formas de comunicação alternativas como pauta, com os jornalistas Leonardo Sakamoto, Daniela Arbex, Fabiana Morais, Josélia Aguiar, Marina Amaral, Mário Magalhães e Plínio Fraga. No encerramento do espaço houve a exibição dos documentários de Paulo Markun: “Habitar Habitat”, “Refugiados”, “Arquiteturas”, e “Igreja de São Francisco de Assis”, com apresentação do diretor e debate com Eduardo Jardim e João de Souza Leite.

No Fórum das Letras de 2017, pela primeira vez, foi montada uma casa com programação independente do evento. A iniciativa foi de Maria de Andrade, editora da Bazar do Tempo, junto com Ana Cecilia Impezzillieri Martins. Houve também um sarau em homenagem a Drummond, com vários poetas mineiros, organizado pelo poeta e artista plástico Mário Alex Rosa, no Bar do Toffolo, que Drummond chegou a frequentar nos anos 50.  

No Espaço CBL, com apoio da Câmara Brasileira do Livro, o universo editoral foi tema central. Luís Antonio Torelli, na época, presidente da Câmara Brasileira do Livro, participou de vários debates da edição. Mesas sobre traduções, com Jacyntho Lins Brandão, Maria Esther Maciel e o tradutor sérvio Dejan Stankovic; sobre mercado internacional, com Sandra Espilotro e Breno Lerner; sobre o e-book e a inclusão digital, com Camila Cabete e o professor da UFOP, Américo Bernardes, na época, diretor de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações; além de um debate com os organizadores de vários dos mais importantes festivais literários do Brasil, e outro sobre a importância dos prêmios literários, com a presença dos principais curadores de prêmios literários nacionais.

Veja aqui depoimentos no Fórum sobre poesia. 

 

2018 Emergências: Literaturas e Outras Narrativas

 

E o que faremos agora? Essa é a pergunta que ecoava e ecoa ainda, desde aquele momento. A realização do Fórum das Letras era especialmente importante em 2018, que prenunciava verdadeiros ataques contra a educação pública e a cultura, ainda em curso. Por essa razão, o tema desta edição, “Emergências: Literaturas e outras narrativas”, se justificava:

“Estamos em um momento de emergências na história do Brasil, em que todos os nossos valores estão sendo colocados em xeque. Quem somos nós? O que queremos? Para onde vamos? Novamente, o Fórum da Letras coloca em discussão as grandes questões do presente, tais como democracia e memória, raça, gênero, territorialidade, futuro, patrimônio e urbanidade. O Fórum das Letras propõe, mais uma vez, como resposta a esses desafios, a radicalidade da poesia e das literaturas, no plural, porque compreendidas na diversidade dos grupos que se expressam através delas no tempo e no espaço. Nesse caso, as literaturas só podem ser pensadas articuladas com outras narrativas, que se apresentam como espaços de discussão e resistência, perante os desafios éticos e políticos que se desenham para o nosso tempo.” , avalia Guiomar.

O evento foi realizado praticamente sem recursos, apenas com apoio do Sesc e das Edições Sesc, como em 2016. As eleições e o desastroso cenário que se aproximava tomou boa parte dos esforços da organização do Fórum, o que prejudicou o trabalho de captação de recursos.

Ainda assim, resistindo, 2018 foi uma edição incrível,homenageando os poetas Guilherme Mansur e Paulo Leminski (dando continuidade ao mote “A poesia como antídoto”, que regeu as atividades do Fórum de 2017) e com a presença duas grandes estrelas do nosso cenário cultural: Milton Hatoum e Conceição Evaristo. 

O “tipoeta” ouro-pretano Guilherme Mansur, que havia participado de quase todas as edições do evento, com exposições, lançamento de livros e com diversas edições da tradicional “Chuva de Poesia”, foi o primeiro e único autor vivo homenageado no Fórum das Letras, ao lado do curitibano Paulo Leminski, falecido em 1989, de quem foi amigo pessoal.

 

Foto: Essa foi a imagem escolhida para o cartaz do Fórum de 2018: o tipoeta Guilherme Mansur e Lana, sua gata de estimação, em foto de Dimas Guedes. 

Em 2018, porém, o Ciclo de Literatura e Jornalismo foi praticamente suprimido por falta de recursos. Houve apenas, para o curso de jornalismo no ICSA, em Mariana, a importante palestra do filósofo Márcio Seligmann-Silva, professor titular de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, “Técnica e destruição: testemunho e empoderamento”, focada no crime ambiental cometido em Mariana, atividade em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFOP.

O Prêmio Oceanos propiciou duas mesas: a primeira, em que a jornalista e escritora portuguesa Isabel Lucas falou sobre processos de criação com as autoras mineiras Maria Esther Maciel e Carla Madeira, mediadas por Selma Caetano. A segunda, na Casa da Ópera, uma conversa entre o grande escritor Milton Hatoum e a jornalista portuguesa Isabel Lucas.

 

Foto: o escritor Milton Hatoum e a jornalista portuguesa Isabel Lucas.

A palestra da escritora Conceição Evaristo teve que ser apresentada em duas sessões, devido ao grande público que lotou o espaço. A escritora falou sobre o denso termo que cunhou para definir sua atividade literária: a escrevivência, com a mediação de Dulce Maria Pereira.

Foto: A escritora Conceição Evaristo abrindo barreiras em Ouro Preto.